[livro] Dois livros e um Darwin

A abertura das comemorações do aniversário de Darwin (mais conhecida como Darwin Day) no Museu de Zoologia da USP (MZUSP) foi histórica. A organização do evento convidou para a primeira mesa-redonda dois personagens diretamente relacionados à principal publicação de Charles Darwin, o livro “A Origem das Espécies”: os professores doutores Nélio Bizzo (FE-USP) e Pedro Paulo Pimenta FFLCH-USP).

Auditório do MZUSP

O primeiro é um dos maiores especialistas em Darwin no Brasil e foi o prefacista e autor de 514 notas técnicas na edição de 2018 de “A Origem” produzida pela Edipro. O segundo foi o tradutor do mesmo título pela editora Ubu, no mesmo ano. Importante ressaltar que ambas publicações referem-se à primeira edição, de 1859. A mediação ficou por conta do prof. Dr. Mário César Cardoso de Pinna, diretor do MZUSP e percursor do Darwin Day no Brasil, que teve início em 2005 no Rio de Janeiro em resposta às declarações da então governadora do estado, Rosinha Garotinho, contrária ao evolucionismo.

Professor Dr. Nélio Bizzo

O professor Nélio Bizzo iniciou sua apresentação “514 tons de cinza – notas de uma traição?” com enfoque em algumas notas técnicas relacionadas à traduções de nomes dos animais descritos por Darwin e como elas mudaram nas diferentes edições ao longo do tempo. Um dos pontos que mais destacou foi o trecho final do livro e o quanto em sua concepção o naturalista britânico dispensou uma atenção para o mesmo. Reproduzo abaixo o trecho:

(…) é igualmente grandioso saber que, enquanto este planeta gira de acordo com a lei fixa da gravidade, infinitas formas, as mais belas e maravilhosas tenham iniciado a partir de uma origem muito simples, e mantenham sempre em marcha sua evolução.

Para efeito de comparação, aproveito para reproduzir o mesmo trecho do livro traduzido pelo professor Pedro Paulo Pimenta:

(…) e, enquanto este planeta segue girando conforme as leis da gravidade, as mais belas formas orgânicas evoluíram e continuam a evoluir de acordo com um princípio tão simples como o aqui exposto.

Em “As muitas línguas da História Natural”, o professor Pedro P. Pimenta utilizou-se da reflexão filosófica e histórica para apresentar sua visão sobre a seleção natural e os caminhos que Darwin percorreu para escrever o livro, bem como o papel e o lugar do Homo sapiens na visão darwiniana.

Professor Dr. Pedro P. Pimenta

Após a fala dos professores, os participantes puderam fazer perguntas para os convidados, que discutiram aspectos convergentes e divergentes sobre o livro, como por exemplo o papel do homem na publicação, ou a ausência do mesmo. Embora a apresentação de ambos tenha sido excelente e enriquecedora, o momento da argumentação possivelmente foi o clímax da noite.

Ouça a conversa na Mesa redonda “Origem 160”
Fonte: Youtube, canal do Museu de Zoologia da USP (2019)

A forma como as divergências foram elegantemente apresentadas e respeitadas deixaria muitos de nós, incluindo parte de nossos representantes políticos, envergonhados. É possível que a elegância e o respeito tenham saído de moda e não façam mais sentido, mas é assim que o pensamento científico se desenvolve (ou deveria) e pode ser utilizado por todos nós, cientistas ou não.

Viva Darwin!


A comemoração continua no museu até o dia 17/02 e vale muito a pena participar:

Para saber mais sobre os livros, acesse:

Edição da Edipro? Clique aqui

Edição da Ubu? Acesse

Informações sobre o Darwin Day no MZUSP

Website do professor Nélio Bizzo

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