Quem vê cara, não vê intenção

A complexidade das florestas da Terra do Fogo (Ushuaia, Argentina) é espantosa. Um terra que já foi habitada pelos índios fueguinos até o início do século 20 e ponto de parada de Charles Darwin em sua histórica viagem a bordo do HMS Beagle, atualmente está parcialmente protegida desde a criação do Parque Nacional, em 1960. Mesmo nestas áreas é possível presenciar os impactos ambientais negativos, principalmente os relacionados à introdução do castor canadense (Castor canadensis), responsável pela destruição de incontáveis área de bosque andino para construção de represas.

A região dos bosques andinos patagônicos ocupa uma faixa de 75 km de largura e se estende até o norte do país, a 2.200 km de distância. O clima é frio e úmido, com neve abundante (ou assim deveria ser, já que a cada ano ela diminui e a chuva aumenta) e composta por diversas montanhas que fazem parte da porção final da Cordilheira dos Andes.

bosquesargetinos.org.ar

Segundo Bolzón & Bolzón (2018), a vegetação dominante é o bosque alto de folhas decíduas (que caem) e perenes, com predominância de seis espécies do gênero Nothofagus: as decíduas lenga (N.pumilio), ñire (N.antarctica), roble pellin (N.obliqua) e raulí (N.alpina) e as perenes coihue (N. dombeyi) e guindo (N.betuloides). Somam-se ao grupo a parasita Misodendron e o fungo ascomiceto Cyttaria darwinii (fungo-de-Darwin), muito abundante nos bosques austrais.

Bosque de Nothofagus
Cyttaria darwinii (fungo-de-Darwin)

Uma das características mais interessantes nessa região é a presença dos turbais, formação vegetal formada pelo musgo do gênero Sphagnum magellanicum, característico de ambientes úmidos e frios, que atrasam a decomposição de matéria orgânica (o que é possível de observar através da grande quantidade de árvores caídas em processo lento de decomposição). Este processo requer também um subsolo pouco permeável com drenagem lenta. Dessa forma, num ambiente com baixa quantidade de oxigênio se produz uma carbonificação lenta da matéria orgânica acumulada (musgos mortos), formando a turba, que funciona como uma esponja drenando a água disponível no ambiente.

Laguna negra e turbal à direita da paisagem.

A presença do vento é constante, o que provoca o atrito (aliado ao som semelhante a um rangido) entre árvores que frequentemente são derrubadas, somando-se àquelas de autoria dos castores. Essa é a paisagem que se apresenta durante as caminhadas no Parque Nacional Tierra del Fuego. 

Estrutura do interior do bosque

Entre montanhas, lagos e aves, eis que surge uma forma interessante:

“Os três irmãos”

Na hora que vi e fotografei, lembrei do primeiro capítulo do livro “A escalada do monte improvável”, de Richard Dawkins:

Não é absurdo esperar que o acaso produza coincidências assim modestas, especialmente se o fotógrafo tiver diversos ângulos à sua disposição

Não demorou muito para encontrar outros ângulos e outras formas, agora na busca intencional do encontro:

“O grito”

E Dawkins continua:

O cérebro humano parece decididamente ansioso para ver rostos. Ele os procura […] e trabalha duro, buscando ativamente por semelhanças.

O livro, como é característica nas demais publicações de sua autoria, traz alguns exemplos dessa busca. Um exemplo é o caso da mariposa-cabeça-de-morte (Acheronia atropos), onde é bastante provável que essa semelhança seja atribuída ao acaso e esse mimetismo tenha alguma possível relação com predadores das mariposas (aves) que podem ler a imagem como um macaco (predador das aves), segundo as pesquisas apontadas por Dawkins e realizadas pelo professor Robert Trivers na década de 80.

Esboço esquemático da região dorsal de Acheronia atropos

O fato é que essas formas fotografadas, mesmo que fascinantes, nada mais são que a ansiedade do meu cérebro em procurar humanos, mesmo que seja no fim do mundo.


Bibliografia

Dawkins, R. A escalada do monte improvável. Uma defesa da teoria da evolução. Tradução: Suzana S. Couto. Cia das Letras, SP. 1998, 317 p.

Bolzón, M.L.; Bolzón, N.D. Patagonia y Antártida. Vida y color. 2 ed. M.L.P.B. Editora, Buenos Aires. 2018, 256 p.

Trivers, R. Social evolution. Menlo Park, Benjamin/Cunnings. 1985.

Bosques nativos argentinos. Áreas boscosas. Bosques Nativos Argentinos agrupados por Región. Obtido em: https://www.bosques.org.ar/areas.php . Acesso em 22fev2019

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