Mata Atlântica e Onça-pintada: dias de um futuro incerto

No dia em que comemora-se oficialmente a Mata Atlântica, duas notícias trazem ao debate o futuro do bioma e das espécies que o compõe. A primeira [1] diz respeito à diminuição de 9% da taxa de desmatamento entre 2017 e 2018, menor valor desde que a série histórica teve início, em 1985. Embora alguns estados (p.e. Ceará, Paraíba, São Paulo) conseguiram manter valores abaixo de 100 hectares (ha) de área desmatada (o que é considerado “desmatamento zero”), outros como Minas Gerais, estado que possui a maior extensão de Mata Atlântica, destruiu 3.379 ha, seguido do Paraná, com 2.049 ha.

Mesmo com a atuação expressiva da Fundação SOS Mata Atlântica e do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a discrepância entre os resultados dos estados mostra como as políticas públicas de conservação ainda são fragmentadas e refletem interesses específicos (agronegócio, pecuária, mineração, especulação imobiliária, entre outros), o que traz consequências desastrosas para a vida do bioma e nos leva à segunda notícia: segundo a WWF [2], restam cerca de 300 indivíduos de onça-pintada (Panthera onca) na Mata Atlântica.

Neste caso, não é complicado entender a relação entre causa e efeito. Destruir 3.379 ha de floresta significa que os organismos que ali vivem ou morrerão durante o processo ou se deslocarão para áreas próximas (naturais ou urbanas). No caso da onça-pintada, onde apenas um indivíduo pode precisar de 70 km2 para viver, o impacto dessa destruição aumenta e a população consequentemente diminui.

O futuro de espécies como a onça é incerto, principalmente se as taxas de desmatamento não diminuírem aos números esperados. Alguns estados brasileiros já estão fazendo a sua parte e podem servir de modelo para os demais e instituições como a SOS Mata Atlântica e WWF promovem estratégias de conservação de espécies ameaçadas, mas principalmente iniciativas amplas para pressionar o poder público a cumprir a legislação ambiental, como a própria Lei da Mata Atlântica, de 2006, sancionada pelo Presidente Lula [3]. O movimento poderia ganhar força se o cidadão entrasse no processo, seja através da participação ativa em conselhos municipais e estaduais de meio ambiente, como também pressionando o Poder Executivo e Legislativo para que a lei seja cumprida e as áreas naturais, protegidas, tivessem seus ciclos biogeoquímicos preservados e o processo de Seleção Natural em pleno funcionamento.


Fontes:
[1] Daniele Bragança. Desmatamento na Mata Atlântica é o menor já registrado.
https://www.oeco.org.br/noticias/desmatamento-na-mata-atlantica-e-o-menor-ja-registrado/ Acesso em 27/05/2019
(b) INPE. SOS Mata Atlântica e INPE lançam novos dados do Atlas do bioma.
http://www.inpe.br/noticias/noticia.php?Cod_Noticia=5115 Acesso em 27/05/2019
[2] WWF. Restam apenas 300 onças-pintadas na Mata Atlântica.
https://www.wwf.org.br/informacoes/noticias_meio_ambiente_e_natureza/?71302/Podcast-Barulho-da-Onca-Restam-apenas-300-oncas-pintadas-na-Mata-Atlantica Acesso em 27/05/2019
[3] Presidência da República. Lei nº 11.428/2006. Dispõe sobre a utilização e proteção da vegetação nativa do Bioma Mata Atlântica, e dá outras providências. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11428.htm Acesso em 27/05/2019

Para saber mais:
Diante da notícia sobre as onças, o WWF a escolheu para a série de podcasts chamada de Barulho da Onça, programas do WWF-Brasil (Fundo Mundial para a Natureza) que estreiam em 27 de maio. Os programas, de caráter educativo, buscam sensibilizar e conscientizar sobre os riscos a que o felídeo está exposto. Ao longo de cinco meses, dez programas serão lançados quinzenalmente e abordarão as peculiaridades da onça-pintada, seu habitat e relações com o bioma. Os produtores do programa vão responder dúvidas dos ouvintes no quadro chamado Esturra. As perguntas poderão ser enviadas para o e-mail barulhodaonca@wwf.org.br ou para o Whatsapp (11) 97266-8310. O primeiro entrevistado será Ronaldo Morato, coordenador do CENAP – Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (fonte: WWF).


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