Extinção das plantas é má notícia para todas as espécies, incluindo os humanos

Um estudo publicado nesta semana na revista Nature Ecology and Evolution [1] afirma que, nos últimos 250 anos, cerca de 600 espécies de plantas foram extintas. A taxa é 500 vezes maior do que o esperado em condições naturais, ou seja, sem os humanos na equação. A pesquisa foi conduzida pela bióloga Maria Vorontsova do Royal Botanic Garden (Kew, Reino Unido) e analisou o status de mais de 330 mil espécies de plantas em publicações científicas. Ela encontrou altos índices de extinção em regiões insulares (ilhas) e tropicais, onde se espera encontrar uma variedade relativa de espécies maior do que em outros ambientes.

Os desaparecimentos, segundo os pesquisadores, fazem parte de um evento ainda maior, conhecido como a sexta extinção, já relatado por diversas pesquisas, publicações como o livro de Elizabeth Kolbert com o mesmo nome [2] e de um relatório recentemente publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU), onde alerta para a extinção de aproximadamente 1 milhão de espécies num futuro próximo [3].

Neste ponto, um parênteses. A extinção é um dos processos naturais da vida. Incontáveis espécies foram extintas, outras estão em processo (como nós, independente da etapa em que nos encontramos) e muitas virão e passarão por ela. Não podemos impedir a extinção, mas o que é inegável é o fato do Homo sapiens ser um dos fatores chave para a aceleração de muitas extinções nos últimos 100 mil anos.

Outra questão importante é que a relação entre humanos e extinções não é nova. O biólogo Fernando Fernandez, autor do livro “O poema imperfeito“[4], nos alerta para a falsa sensação que nossa sociedade adotou sobre o papel humano nas extinções, onde o pensamento vigente é que começamos a influenciar esse processo entre os séculos 18 e 19:

O efeito destrutivo exercido pela sociedade industrial sobre a natureza é bem conhecido e inquestionável. No entanto, só a partir da década de 60 (século 20) vem ganhando terreno uma percepção adicional: a de quão profundamente o homem pré-histórico já havia afetado faunas de continentes inteiros, especialmente por meio da extirpação seletiva dos animais terrestres de grande porte – chamada megafauna. (p.27)

A pesquisa chama atenção por se tratar da ameaça de um grupo taxonômico – as plantas – que geralmente não aparece na mídia sob essa luz. Nossa tendência é focar a megafauna carismática e ignorar os demais grupos. Embora todas as espécies possuam um papel biológico nos ambientes, nunca é demais ressaltar o papel fundamental das plantas nos ecossistemas terrestres e aquáticos. Entender as ameaças e extinções desse grupo é essencial para pensar o futuro da vida no planeta Terra, dos planos de conservação e das políticas públicas.

O governo brasileiro (e muitos outros) ainda está muito distante desse entendimento, principalmente quando congressistas fazem o caminho inverso e tentam destruir o Código Florestal Brasileiro, com Projetos de Lei (como PLS 2362/2019) que, se aprovados, poderão causar a destruição de mais de 5 milhões de hectares de áreas naturais no país [5].

Para quem acha que não tem nada a ver com essa história, vale a pena refletir um pouco mais. Somos dependentes diretos das plantas em elementos básicos de sobrevivência como alimentação, abrigo, água e clima. Além disso, elas são importantes para a manutenção dos ciclos biogeoquímicos do carbono e oxigênio, por exemplo, e consequentemente melhoram nossa saúde mental quando aprendemos a conviver próximo a elas. O fato é que quanto mais acelerarmos as extinções de plantas, estaremos mais próximos de transformar a vida na Terra. E nessa transformação, talvez não haja espaço para nossa espécie.


Para saber mais:

[1] Humphreys,A.M.; Govaerts,R. Ficinski,S.; Lughadha,E.N.; Vorontsova, M.S. Global dataset shows geography and life form predict modern plant extinction and rediscovery. Nature Ecology & Evolution, 10 jun. 2019. Obtido em: link para o artigo.
[2] Kolbert, E. A sexta extinção. Uma história não natural. Editora Intrínseca, 336 p. 2015.
[3] ONU Brasil. Relatório da ONU mostra que 1 milhão de espécies de animais e plantas enfrentam risco de extinção. Obtido em: link para o artigo.
[4] Fernandez, F. O poema imperfeito. Crônicas de Biologia, Conservação da Natureza e seus Heróis. Editora UFPR e Fundação Boticário, 263 p. 3ª ed. 2017
[5] SENADO FEDERAL. Projeto de Lei 2362/2019. Revoga o Capítulo IV – Da Reserva Legal, da Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012, que dispõe sobre a proteção da vegetação nativa, para garantir o direito constitucional de propriedade. Obtido em: link para o Projeto de Lei.

2 comentários em “Extinção das plantas é má notícia para todas as espécies, incluindo os humanos

    1. A extinção é processo natural..dessa forma é realmente irreversível. A questão é entender nossa influência nesse processo e buscar formas de diminuir nosso impacto. Pelo histórico apresentado no texto, isso se torna a cada dia que passa mais desafiador..

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