O mito da Vida Feliz dos cativos

Há algumas semanas recebi um artigo sobre um indivíduo que conheci e convivi há algum tempo atrás. No final texto fui surpreendido pela seguinte frase:

“Apesar das grades, mãe e filho vivem uma vida feliz. Há 14 anos.”

Quem lê essa frase pode pensar que se trata de alguém que cometeu um crime e está preso há um tempo, e que a presença da mãe transforma a tragédia em história de amor. Mas se engana.

A frase remete à relação de um leão preso há 14 anos num pequeno zoológico e uma humana da equipe que vem ajudando a manter o bicho no local desde o nascimento.

Em pleno século XXI – onde muitos países, como a Costa Rica [1], estão discutindo seriamente a possibilidade de extinguir a visitação pública de animais cativos – ainda há espaço para o entendimento de que a vida de um animal selvagem em zoológico tem algo de feliz. Ainda mais doente é a visão de que, mesmo o zoológico não oferecendo as condições mínimas de bem estar, bastam pessoas com boa intenção e com o coração cheio de amor para proporcionar uma vida “feliz” aos animais presos. Não basta.

Vamos ao caso do leão. Leões são mamíferos que atualmente vivem majoritariamente na África e são considerados animais gregários (vivem em grupos), onde vivem numa sociedade matriarcal (base são as fêmeas) com muitos indivíduos ocupando grandes áreas de planícies abertas (savanas). Em vida livre, sua rotina diária varia de acordo com a idade, o sexo e a posição no grupo, e pode contemplar longas buscas por comida, marcação e defesa de território, predação, descanso prolongado e comportamentos reprodutivos. Em cativeiro também há rotina diária: dormem presos em cubículos, revezam os espaços maiores de exposição pública com os demais, vivem sozinhos ou separados, comem pedaços de carne em horários definidos e dormem a maior parte do tempo, fato este que provoca a ira dos humanos visitantes, que vociferam palavras de baixo calão ao bicho que não as compreende e continua aquilo que talvez amorteça sua existência sem sentido.

O resultado, ironicamente, é que os leões cativos vivem em média duas vezes mais do que os indivíduos em vida livre. Entre cuidados veterinários, comida de baixa qualidade, espaços confinados, insuficientes e humanos sem educação – retrato atual brasileiro – a longevidade estendida torna-se maldição ao invés de ser benção. O governo brasileiro até tentou impedir a reprodução dos grandes felinos no Brasil, mas como é possível verificar, não obtiveram sucesso.

Biólogos, veterinários, tratadores, estagiários e todos os demais envolvidos (durante mais de dez anos já fui uma dessas pessoas) com os animais cativos são, em sua grande maioria, profissionais que doam suas vidas pelos animais. Os reconhecem e os tratam como indivíduos, respeitando-os e cuidando durante longos períodos de muitos animais. A afetividade é consequência legítima, mas é necessário que essas pessoas entendam, bem como a sociedade atual, que ela não é suficiente para que bichos como chimpanzés, leões, hipopótamos ou orcas – para citar alguns exemplos – sejam felizes, ou que tenham bem-estar. Os animais precisam exercer seu papel biológico nos ecossistemas naturais e, para isso, precisamos defender a conservação dos ecossistemas terrestres e aquáticos além da diminuição gradativa da manutenção de animais cativos em todo o planeta.


Fonte:
[1] Néfer Muñoz. Costa Rica fecha zoológicos para ‘proteger meio ambiente’. 2013.
https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/08/130731_costa_rica_meio_ambiente_lgb

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