Um poema imperfeito

A natureza é imperfeita. Essa é a premissa que o autor de “O Poema Imperfeito“- o biólogo e ecólogo Fernando Fernandez – utiliza para apresentar seus “poemas” em forma de contos. Ele nos alerta sobre a falsa noção de nossa sociedade exibe frente ao papel do ser humano nas extinções, onde o pensamento vigente atual é que a humanidade começou a influenciar nesse processo apenas no século 19.

Segundo o autor:

O efeito destrutivo exercido pela sociedade industrial sobre a natureza é bem conhecido e inquestionável. No entanto, só a partir da década de 1960 vem ganhando terreno uma percepção adicional: a de quão profundamente o homem pré-histórico já havia afetado a fauna de continentes inteiros, especialmente por meio da extirpação seletiva dos animais terrestres de grande porte – a chamada megafauna. (p.27)

Para aprofundar a ideia, Fernando nos convida a voltar no tempo:

Imaginemos que tivéssemos a oportunidade de viajar pelo mundo (…) há 50 mil anos atrás, no Pleistoceno (…) no conjunto da nossa longa viagem teríamos visto um mundo vivo imensamente mais rico que o de hoje, habitado por uma interminável coleção de criaturas fabulosas – uma realidade muito mais fantástica que qualquer ficção. Teríamos contemplado, certamente, o maior espetáculo da Terra. (p.31)

Um dos argumentos principais utilizado é que o conhecimento das ciências – biologia, ecologia, evolução e biogeografia – fornecem uma base fundamental, tanto científica quanto filosófica, para que possamos conservar a natureza e a vida silvestre. Neste livro, o homem não é o personagem central, mas é um dos fatores-chave para as extinções dos últimos 100 mil anos.

Como já dito, este é um livro de contos. O primeiro capítulo dá nome ao livro e trata da já mencionada da ilusão de que o homem primitivo coexistia em harmonia com a natureza:

É irônico pensar que a chamada revolução agrícola, tão louvada como ponto de partida para nossa civilização, tipicamente só foi adotada em cada lugar depois que a caça de grande porte se tornou difícil de obter. E não é menos irônico observar que os povos que hoje dizemos que coexistem apenas com as espécies difíceis de extinguir, porque as fáceis já foram extintas há muito tempo. (p.42)

O autor afirma que essa ilusão nos leva a entender que o poema (a natureza) estava completo até pouco tempo atrás, foram retirados apenas alguns versos e se corrigirmos essa pequena falha as futuras gerações poderão conhecê-lo na íntegra. Mas,

(…) o poema que herdamos não era perfeito. Rasgaram, sim, antes de nós, muitas das passagens mais grandiosas. Perdemos por um piscar de olhos geológico a oportunidade de conhecer uma riqueza biológica infinitamente maior que a atual. Perdemos tantos seres maravilhosos, produtos do mesmo processo evolutivo que levou a nós, e que dividiram o planeta com os nossos ancestrais. A crise ecológica não é um aborrecimento passageiro; tem nos acompanhado ao longo de toda a história, e tem mesmo sido um dos principais motores da história. O custo de ignorá-la não tem sido mero incômodo estético, mas a própria ruína da civilização em questão. (p.46)

O segundo capítulo trata dos cientistas Huxley, Croizat e Hutchinson, que contribuiram fundamentalmente para a ecologia, evolução e biogeografia, respectivamente. O terceiro fala sobre um dos tópicos mais intrigantes da ecologia: o caos determinístico. No quarto capítulo, o tema é fragmentação florestal, um dos maiores problemas enfrentados pela conservação da natureza. O quinto desenvolve a relação entre a conservação e as mudanças necessárias na área econômica. O sexto busca desfazer equívocos sobre a seleção natural e o sétimo trata das consequências filosóficas das consequências de nossa origem evolutiva e a relação com a natureza.

Quanto ao poema, o autor sugere que ela seja encontrada durante a leitura e finalizo com uma frase do livro:

É preciso conhecer e entender para conservar, mas como Fernando afirma, é preciso também amar.


Infelizmente o livro (ainda) não ganhou projeção com o grande público, mas felizmente já está na quarta edição e ganhou um documentário (40 min.) dirigido por Zulmira Coimbra e ilustrado por Lucia Antunes:


Para saber mais:
Entrevista com Fernando Fernandez para o site O Eco: Obtido em: https://www.oeco.org.br/reportagens/10916-o-poema-imperfeito-com-fernando-fernandez/. Acesso em 03jul2019

Sobre o autor: Fernando Fernandez é biólogo, tem doutorado em Ecologia pela Universidade de Durham (Reino Unido) e é professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Brasil). Atua nas áreas da Biologia da Conservação, da Ecologia Populacional de Mamíferos e da Paleoecologia. Dedica-se também à divulgação científica e é cronista no jornal sobre conservação da natureza O Eco.

Página oficial do filme: https://theimperfectpoem.wixsite.com/movie/trailerpt

Site da ilustradora Lucia Antunes: https://luciaantunes.com/

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