O chamado do novo mico amazônico

Nosso conhecimento sobre a diversidade biológica cresce a cada dia através do resultado de pesquisas científicas e recentemente um grupo de pesquisadores, em sua maioria brasileiros, contribuiu para que as informações sobre um família de primatas amazônicos estejam agora menos incompletas com a descoberta e descrição de uma nova espécie de sagui, Mico munduruku sp. n., ou simplesmente sagui-dos-mundurukus, homenagem aos índios Munduruku.

Sem dúvida, esta é uma boa notícia para todos nós, pois reforça a tese de que a diversidade biológica deste pedaço do planeta é imensa e ainda há muito o que se descobrir. O fato da espécie habitar parte da região amazônica e pertencer à Classe dos mamíferos é ainda mais interessante, pois esse grupo – que hoje possui cerca de 5000 espécies (Wilson & Reeder, 2005) – assim como aves, peixes, répteis e anfíbios, tem sido estudado e descrito há séculos e as descobertas não aparecem atualmente com tanta frequência, principalmente na Amazônia, região onde são pouco conhecidos e dados obtidos de trabalhos de campo e museológico são escassos e há falta de amostras para análises moleculares.

Saguis formam uma família denominada Callitrichidade e são representadas por quatro gêneros: Callibella, Callithrix, Cebuella e Mico. São encontradas na Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga (Callithrix) e Amazônia (Cebuella, Callibella e Mico). Nesta última, há muitas áreas que foram muito pouco exploradas ou que nunca havia sido realizada pesquisa de campo. E estas foram as áreas que a equipe coordenada pelo pesquisador Rodrigo Costa-Araújo, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) realizou as pesquisas, na região do encontro Tapajós-Mirim (sul da Amazônia, leste do rio Madeira e sul do rio Amazonas), com o objetivo de investigar a taxonomia dos saguis na região.

Entre maio de 2015 e abril de 2018, a equipe desenvolveu o trabalho em dez campanhas de campo, que consistiu em percorrer a floresta a pé ou por canoas tocando gravações de chamados longos das espécies Mico argentatus e M. marcai, para estimular respostas dos saguis por meio da vocalização. Além disso, foram coletados indivíduos (espécimes) e amostras de tecido (com permissão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio). Os espécimes foram depositadas nas coleções mastozoológicas do INPA, Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG) e as amostras na Coleção de Tecidos de Genética Animal (CTGA) da Universidade Federal do Amazonas. Tanto os espécimes quanto dados e amostras foram coletadas compuseram um quadro taxonômico, utilizando dados de pigmentação de pelagem, relações filogenéticas (através de sequências de DNA) e distribuição geográfica.

Visão dorsal e ventral de Mico munduruku sp. n. Crédito da imagem: Rodrigo C. Araújo

Através da análise do quadro foi possível considerar a existência de uma espécie ainda não descrita, caracterizada por uma cauda branca, dorso bege-amarelado, mãos brancas, pés brancos e antebraços brancos com uma mancha bege-amarelada no cotovelo – uma combinação de cores nunca antes avistada em saguis da região, que compreende a margem esquerda do rio Jamanxim, a foz do rio Novo e possivelmente até a margem direita superior do rio Tapajós, abaixo da foz do rio Cururú, habitando as florestas primárias e secundárias na região (localidade tipo: comunidade Boca do Crepori (05°46′55″S, 57°15′14″W), margem direita da foz do rio Crepori, Itaituba, Pará).

Da esquerda para a direita: Mico munduruku sp. n., M. leucippe, M. emiliae, M. argentatus, M. rondoni, M. intermedius. Crédito da imagem: Stephen Nash.

Segundo os pesquisadores, a espécie é endêmica e ocupa uma área de aproximadamente 55.000 km2 na porção norte do encontro Tapajós-Jamanxim, sudoeste do Pará. Sem surpresas, é uma área que tem sofrido extensos danos ambientais relacionados à extração ilegal de madeira e expansão agrícola, inclusive dentro dos limites de Unidades de Conservação federais e áreas indígenas. Sem dúvida, é um dos locais da Amazônia onde a conversão de florestas em pastagens, plantações e ocupação humana é mais intensa e impactante, com pelo menos quatro projetos de implantação de usinas hidrelétricas que certamente impactarão diretamente a vida desta e de muitas outras espécies que coabitam com esses saguis.

Distribuição geográfica de Mico munduruku sp. n. e registros de M. leucippe no encontro Tapajós–Xingu, sudeste amazônico. Link da imagem original.

Sendo assim, embora devamos comemorar a descoberta, a euforia rapidamente cede lugar à preocupação com a sobrevivência desses primatas. Mais pesquisas são urgentes para melhor delimitação das áreas de vida da espécie, bem como estimar sua população e densidade, possibilitando assim entender o status de conservação e criar estratégias para mitigar alguns dos impactos antrópicos nesta população. Mas precisamos ir além. É necessário que a sociedade entenda o valor da biodiversidade e pressione seus representantes eleitos para que possam agir à favor da conservação e do equilíbrio ambiental, frente à destruição que os representantes atuais do Ministério do Ambiente e do Poder Executivo Federal fazem questão de estimular e autorizar.


Acesso ao artigo publicado:
Costa-Araújo R, de Melo FR, Canale GR, Hernández-Rangel SM, Messias MR, Rossi RV, Silva FE, da Silva MNF, Nash SD, Boubli JP, Farias IP, Hrbek T. 2019. The Munduruku marmoset: a new monkey species from southern Amazonia. PeerJ 7:e7019 https://doi.org/10.7717/peerj.7019

Para saber mais:
Printes RC. 2017. Adeus Amazônia: conflitos agrários e socioambientais por trás do desmatamento no sudoeste do Pará. Curitiba: Editora Prismas.
Rylands AB, Mittermeier AR. 2013. Family Callitrichidae. In: Mittermeier AR, Rylands AB, Wilson DE, eds. Handbook of the Mammals of the World: Primates. Barcelona: Lynx. 3:262-347
Wilson, D., D. Reeder. 2005. Mammal Species of the World: A Taxonomic and Geographic Reference. Baltimore: The Johns Hopkins University Press. Accessed May 22, 2007 at http://nmnhgoph.si.edu/msw/.

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