Entre leões e ursos, uma reflexão sobre a educação ambiental em zoológicos e aquários

Quando penso na Educação Ambiental como o desenvolvimento de um conjunto de práticas transformadoras para que os humanos possam entender seu papel biológico e agir de modo coerente e ético na teia da vida, não consigo entender como podemos ver a exposição pública de animais selvagens como parte integrante dessas práticas.

O que estamos ensinando às crianças que visitam um zoológico e observam um leão sozinho, sem juba e garras, andando para lá e para cá repetidamente ou um urso-polar que veio da Sibéria, cativo no meio da cidade de São Paulo e que passa a vida balançando a cabeça, mergulhando, saindo da água e mergulhando novamente? Quem já observou cenas semelhantes sabe que basta alguns minutos para elas perguntarem aos monitores locais o que está acontecendo. Qual seria a resposta mais adequada?

Em parte, a culpa não é dos monitores. Muitas vezes, as capacitações realizadas nessas instituições são baseadas em argumentos que muitas vezes desviam dos fatos e trazem questões relacionadas à inevitabilidade: “se não houvesse zoológico, qual a chance de vermos animais selvagens?”, “não retiramos animais da natureza” ou “esse animal chegou ferido e estamos dando dignidade à ele através de enriquecimento ambiental”. Mas é comum esquecer de incluir neste discurso que muitos animais poderiam ser reabilitados (mas não são), outros chegaram por troca ou não há interesse em expor aquele animal em determinado zoológico e ainda há aqueles sem regras eficientes de manejo reprodutivo ocasionando nascimentos sem controle ou estratégia conservacionista.

Isso resulta, para dar alguns exemplos, em recintos povoados de animais de populações diferentes obrigados a conviverem diariamente (muito comum com macacos-prego aqui no Brasil), animais de hábitos gregários (vivem em grupos) que vivem até a morte solitários (lembrem da elefanta e do gorila do zoológico de São Paulo), instalações que não atendem as necessidades biológicas mínimas (comida, abrigo, área de vida, fatores abióticos, etc.). Curioso como a palavra “cativeiro” para humanos é uma palavra tão negativa e quando nos referimos aos animais vivendo num zoológico os consideramos de animais em cativeiro. Como é possível denominar espaços como esse de “educativos”, no sentido de uma transformação de consciência para uma prática conservacionista?

É claro que há equipes muito competentes nessas instituições ligadas à exposição pública de animais, realizando projetos baseados em linhas pedagógicas sérias, reconhecidas e direcionadas por vezes mais para um conservacionismo in-situ (natureza) do que ex-situ (cativeiro), o que é no mínimo contraditório. Ao mesmo tempo, instituições que não trabalham com a exposição pública (criadouros, áreas de soltura, reabilitação, entre outras) vêm desenvolvendo um intenso trabalho educativo para mostrar as principais ameaças sofridas pela fauna selvagem, sem a necessidade de ter o animal exposto para realizar as atividades de Educação Ambiental.

Já passou da hora da nossa sociedade avançar no conceito de lazer e abandonar o aprisionamento e uso de animais selvagens com a desculpa de isso tenha algo relacionado com educar. Tenhamos coragem de dizer que isso não é educação e sabedoria para apontar novos caminhos.

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